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Anatomia de The Pitt

E outras coisas que eu não aguentei e acabei por acrescentar

Anatomia de The Pitt
Anatomia de The Pitt Milena

O apelo da emergência, da adrenalina e de imaginar como pensam e tomam decisões essa classe tão imponente na sociedade — a dos doutores da saúde — talvez seja o grande fator do engajamento dos mortais com as peças audiovisuais dessa temática. Mas o que sobra quando isolamos o sangue, as cabeças abertas e as demais patologias?

É claro que, em pleno 2026, é impossível enfiar o gagau de propaganda militar estadunidense goela abaixo dos jovens, se não vier saborizado com a dita "agenda woke". Há mulheres fortes, mulheres não brancas, mulheres de hijab (só uma, na verdade... também não vamos exagerar). Há também homens escrotos, mas escrotos num ponto em que homens realmente escrotos que assistam à escrotidão a achem escrota. Não a ponto de homens escrotos assistirem e se identificarem — a escrotidão cinematográfica é malvista na vida real, e vice-versa. E, claro, há em algum momento, como uma mensagem nada subliminar, uma estrela de Davi e uma oração judaica no momento mais sensível do herói.

Em determinado ponto da série, acontece um tiroteio em massa e, depois de uns três episódios acompanhando as consequências desse acontecimento (vale lembrar, corriqueiro nos EUA), a polícia resolve o caso com um tiro na cabeça do atirador. Os médicos e enfermeiros apontam repetidas vezes o quanto são mal pagos e o quanto o hospital necessita de maiores investimentos, criticam o aspecto predatório da administração e até ameaçam uma greve (emoji de mamadeira).

Mas nós, aqui do outro lado da tela, que não estamos nos EUA e que sabemos que apenas um tiro na cabeça do autor da tragédia é ineficaz frente à realidade de centenas de feridos e alguns mortos, por vezes não nos atentamos que, não sendo essa análise o ponto central da trama, esse discurso acaba por se resumir a uma papinha com um comprimido amassado no meio.

Além disso, durante o plantão dos feridos pelo tiroteio, surge um novo personagem em posição de liderança, grande amigo do herói citado acima, que é um veterano de guerra (que, pela idade, provavelmente esteve em algum lugar na Ásia Ocidental). Ou pelo menos dá a entender que é, pelo insistente discurso relacionado a conflitos armados, comparando-os com a situação presente, e pela "alta capacidade de gerir situações extremas sob pressão". Claro, também pelo fato de, no final do episódio, numa cena muito enfática e quase comicamente desnecessária, um close-up do tal veterano removendo sua prótese ortopédica para limpar o sangue dos sapatos.

Recentemente li em algum lugar que as produções estadunidenses mais recentes no mainstream são todas propagandas militares... mas quando é que não foram? Seja no recente remake de Bugonia, em que os protagonistas são retratados como lunáticos durante todo o filme, mas o final revela que estavam certos; seja na série Pluribus, em que o planeta é invadido e controlado por uma consciência coletiva que rejeita a individualidade (e, consequentemente, o individualismo) e, por isso, a única sobrevivente estadunidense se impõe como o último resquício de coerência e bom senso da face da Terra, em defesa de características ditas como inerentes à raça humana (até porque a confusão entre individualidade e individualismo, deliberadamente ampliada na série, também é proposital), fazendo uma evidente e simplista alusão aos extremos comunismo e capitalismo; seja em The Paper, a comédia spin-off de The Office, em que a profissional mais séria de um jornal, que preza por matérias coerentes e uma investigação limpa, é uma antiga correspondente de guerra que escrevia para o Stars and Stripes, conhecido veículo independente voltado para militares dos EUA.

Em todas elas, a representação exagerada de negacionistas e conspiracionistas que, sozinhos, tentam livrar a humanidade de todo o mal; ou a única sobrevivente estadunidense de um apocalipse humano, com o papel de salvar o mundo do comunismo alienígena; ou a jornalista que pode reerguer um jornal corrompido por notícias falsas e irrelevantes — tudo isso tem o poder de parecer uma crítica, a depender dos olhos de quem vê.

Em outras palavras, essa máquina de guerra que é o audiovisual estadunidense, em suas mais diversas formas e cores que mudam a depender da demanda, foi forjada pela covardia. Mas, ainda assim, é a papinha disponível, de fácil acesso nas plataformas de streaming, nos cinemas e na TV, que ainda temos o maior gosto de consumir enquanto tentamos ordenhar algum sentido desses conteúdos que são só mais uma vaquinha magra.

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