O sonho do oprimido
Tendo chegado ao fim da linha do mercado de trabalho, esbarrei com talvez a única possibilidade de alguém, sem especializações acadêmicas, alcançar o santo graal do nosso tempo, que é o home office: um “trabalho no digital”.
Como alguém que odeia com todas as forças a atual função, boa parte do meu tempo livre tem sido dedicado a um curso de roteiro e a busca de um emprego que não tome 4h do meu dia em transportes públicos. Portanto, naturalmente, e ao contrário de mim, meu algoritmo se encontra completamente viciado em trabalho, me entregando uma quantidade irracional (!) de conteúdos não solicitados envolvendo trabalhadores “do digital”. Não sei o termo certo pra isso, e “o digital” me parece muito abstrato, mas vou insistir no termo, porque acho cômico. Pra mim, dizer “eu trabalho no digital” é a versão atualizada do “eu trabalho numa firma”. Da época em que o hype era trabalhar em “firma”.
Muitos desses conteúdos, apesar de pouco elucidativos em relação ao trabalho em si, mas muito focados na mudança de vida do trabalhador “eu saí do CLT e hoje estou muito mais feliz e ganhando dinheiro de verdade”, me seduziram tanto que decidi, não mergulhar, mas molhar os pézinhos.
Vale deixar claro que estamos falando d’O Digital, e não de absolutamente qualquer trabalho realizado em um ambiente digital. Estamos falando daquele nicho com sabor de seita, com eventos megalomaníacos, que também vez ou outra me aparecem no meio desses conteúdos que meu algorítmo insiste que eu veja. Estamos falando de um estilo de vida. Ou melhor, de um lifestyle.
A maioria dos conteúdos que vi começava sempre com uma história bonita e parecida com a minha. Também sou jovem, sem diploma, sem experiência, sem perspectiva, sem dinheiro… me senti a pessoa nas imagens em preto e branco das propagandas da Polishop. Em seguida eram os refrescos, as viagens, os bens. Mas como eu ainda não tava entendendo do que se tratava o trabalho me aprofundei em alguns conteúdos e a conclusão é que: realmente cheguei a considerar algo muito próximo de um esquema de pirâmide. Enquanto alguém que viveu o caso Telexfree no twitter, achei que eu era imune a essas coisas…
A verdade é que não tenho talento nenhum pra vender o que quer que seja, não sei sequer calcular um troco e não sou capaz de convencer ninguém de algo que eu não acredite…
Minha opinião impopular é que -O Digital- é a cientologia do mundo do trabalho: ninguém sabe explicar ao certo do que se trata e a galera lá dentro só interage entre si.
Se todo dia saem de casa um malandro e um otário, eu continuo buscando um trabalho remoto pra não correr o risco. Pra fechar o desabafo e a reinauguração dessa página, infelizmente não vai ser dessa vez que vou abraçar a oportunidade de comprar um curso-que-me-ensine-a-vender-curso. Realmente, o sonho do oprimido é ser professor… ou algo de mesmo efeito.
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