Uma escolha muito difícil
Como pode um simples objeto despertar o pior em um ser humano?
A almofada de pescoço é um dos maiores golpes institucionalizados das últimas décadas. Certa vez, enquanto procurava mais informações sobre essa invenção, abri um artigo na Folha de São Paulo a respeito dos travesseiros em U e sobre sua função primária ser em banheiras, mas fui interrompida pela barreira da assinatura. Portanto, essa experiência não teve grande relevância, a não ser para o despertar de um sentimento familiar.
Abrindo um grande parêntese, já que vou falar de um sentimento familiar MEU: nunca fui uma grande entusiasta da experiência de viajar de avião. Cresci viajando de carro e ônibus, que não exigem grande performance; então, minha transição forçada para as viagens de avião veio repleta de ressentimento. Como eu disse, cresci com viagens de carro e ônibus e apreciar, em detalhes, toda e qualquer paisagem que saltasse aos meus olhos, durante muitas horas, provavelmente foi o que me trouxe para os tempos atuais com uma paciência raríssima e com um senso de percepção peculiar (modéstia à parte).
Foi adentrando nesse bosque escuro dos amantes de viagens (de avião) que descobri os mini potinhos de xampu, as mini escovas e pastas de dentes, os porta-passaportes, as tags para as malas, a máquina que enrola a mala com filme plástico e, entre outros acessórios voltados para esse público, o travesseiro em U. Já não me lembro sequer se algum desses itens já existia no auge rodoviário.
Lembro que, com a popularização das viagens aéreas, iniciou-se também (mais) uma grande onda de ódio contra os pobres, que agora tinham acesso a esse grande privilégio de… se locomover. E um dos discursos sempre presentes era o do destoante “senso estético” e a falta de noção relacionada à “etiqueta” do aeroporto. Num mundo perfeito, as coisas não teriam se voltado a favor dessas normas irrelevantes, mas aconteceu. Via as pessoas comprando roupas novas para viajar: “Não vou com essa mala para um AEROPORTO, tenho que comprar uma mais bonita”. Toda uma preparação de imagem e atitude para esse ambiente que poderia ser muito mais confortável, mas preferimos ceder à performance da sofisticação.
Durante muito tempo me recusei a ter um travesseiro de pescoço. Me causava um desconforto astronômico ver alguém com aquele pedaço de almofada, mesmo a quilômetros de distância. Um item tão pequeno me recordava de tudo e me irritava profundamente.
Acabo de perceber que dei um importante spoiler no parágrafo anterior, mas não vou corrigir. Agora que o leitor sabe que eu cedi ao travesseiro de pescoço, eis aqui uma explicação muito simples: envelhecimento e encolhimento constante das aeronaves. Por isso, decidi dar uma chance e, quando percebi a clara melhoria na qualidade da minha viagem, olhei ao redor e entendi todas aquelas milhares de pessoas com o mesmo objeto que eu.
Quando decidi, já no aeroporto, comprar um travesseiro de pescoço, fiz isso ciente do meu diagnóstico de idiota: sabia que o preço inflacionado poderia me trazer tristes consequências, mas o desejo de descansar diante de um cansaço extremo, problemas de saúde, problemas na cabeça, problemas, problemas, problemas… eu queria era saber se aquilo que noventa por cento das pessoas no meu campo de visão tinham em seu pescoço poderia se traduzir em alguma solução para mim. O resultado foi uma viagem péssima, portanto, muito melhor do que as outras sem o travesseiro.
Agora vamos voltar ao início, porque é aqui que acontece o encontro de dois momentos em um sentimento familiar.
O travesseiro em U é a solução mais popular para o conforto em viagens aéreas. E eu tenho que achar normal a existência de um mercado para que, além da passagem, além de todos os custos extras para ir do ponto A ao ponto B, eu ainda tenha que pagar por algo que beira a necessidade básica?
Ter sido induzida a pagar dinheiros pelo tal travesseiro potencializou um sentimento de impotência para com algo que está muito além de nossos pescoços: não vamos parar nunca de gastar cada vez mais dinheiro para uma experiência cada vez pior no mercado aéreo.
E ter sido barrada pela parede de assinaturas do site da Folha de São Paulo… enfim.
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