Desculpa
— Você disse que precisava falar comigo, mas se for pra falar de novo sobre o seu trabalho, por favor fale com outra pessoa. CARA, você só fala disso! Tem mais coisas na vida, pelo amor de DEUS, isso é só um pedaço de quem você é, e, honestamente, nem é grande coisa…
— …ok.
— Olha, foi mal. Mas eu realmente não aguento mais ouvir sobre o seu trabalho de nove (09) anos, etc… já tá me dando nos nervos. Se você começar com essas referências e piadas internas que você já me explicou mas, ENTENDA, eu não estava lá! Eu vou me passar completamente!
— Calma, eu…
— É sério, esse assunto tem criado um grande distanciamento entre nós, a nossa amizade tem sido monopolizada por este tópico! Lembra quando aconteciam outras coisas na nossa vida? Não era o máximo? De repente tudo gira em torno de uma multinacional? Eu não posso acreditar que a sua vida vai girar pra sempre em torno de uma MULTINACIONAL! É nesse fundo de poço que você deseja viver?!
— Nã…
— ENTÃO! Mal posso esperar pra chegar o dia que você vai me falar sobre algo que caminhe em outra direção… Quando o Marx disse que o trabalhador só tinha a perder os seus grilhões é porque ele não te conhecia… você está presa por uma força imaterial, um espírito obsessor, uma matilha de demônios!
— Nossa.
— Cada vez que você cita esse seu trabalho de merda, anjos morrem. Eu até preferia quando você tinha um espírito combativo e falava sobre isso pensando em soluções. Agora parece que pegou gosto pela desgraça.
— Bom…
— Não, e o pior é ter que sentar aqui e ver o seu esforço em tentar falar de outra coisa e a acabar voltando pra isso! Você não ia numa psicóloga? Você não fala com ela? Meu Deus demite logo essa profissional, não parece estar adiantando nada! Aliás, procura um dos psicólogos lá do seu trabalho, assim você mergulha logo de cabeça na alienação, talvez assim você se sinta mais fel…
— Ok, eu vou parar você por aqui, até porque eu queria te dizer que eu pedi demissão.
— D… demissão? Wow… demissão? Hahaha… peraí. É sério?
— É!
— Nossa… hahaha… que loucura. Desculpa, acho que eu fui muito dura contigo.
— Tranquilo, falou só verdades.
— Ufa… confesso que tô sentindo um alívio gigante!
— Hahaha, nem me fale.
— Hahaha… ué… você… você tá sem um braço?
— Ah, é. Perdi no trabalho.
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